Raul Seixas faz 65 anos

Raul Seixas nasceu manhã do dia 28 de junho de 1945, na cidade de Salvador, capital da Bahia. Autodeclarado filho do pós-guerra, ele cresceu sob a influência do modo de vida propagado pelo vindouro movimento contracultural. Contra as atitudes beligerantes do sistema, curtição e ações pacíficas. O novo comportamento, que no Brasil foi apelidado de desbunde, era praticado pela turma que escutava rock, lia os poetas beat, fazia filmes em Super-8, não cortava os cabelos e preferia fumar maconha a pegar em armas.

O desbunde, longe de ser uma simples alienação naqueles anos de chumbo, foi uma atitude intempestiva e marginal que transgredia as normas sociais e políticas então vigentes. Na procura de uma nova forma de pensar o mundo, o desbunde tornava-se uma perspectiva capaz de romper com a razão instrumental e o militarismo característicos tanto das direitas quanto das esquerdas.

Raul Seixas, avesso a qualquer tipo de autoridade, valorizou o individualismo, a heterogeneidade e a pluralidade. A ética universal impositiva foi substituída pelo pluralismo normativo, com o decorrente enaltecimento da metamorfose ambulante, isto é, do indivíduo fragmentado, descentrado, disposto a afirmar sua singularidade contra o rigor de todas as opressões.

Na discografia de Raul Seixas os irracionalismos, as antíteses e os antagonismos extremados ocupam o centro da cena. A sua música é um mosaico exemplar da contracultura. Ele mistura, em sua obra, diferentes ritmos e estilos musicais, poesia e música, filosofia e astrologia, ocultismo e religião, crítica social e desbunde, tudo regado ao uso de drogas lícitas e ilícitas. Com essas características, suas músicas muitas vezes são recusadas por intelectuais e ativistas engajados, enquanto nem sempre são compreensíveis para as massas incultas.

Atento às tensões políticas e socioculturais de seu tempo, um esperançoso compositor oferecia ao público a promessa de superação do sofrimento imposto pela sociedade autoritária. Diante das dificuldades de mudar os pressupostos sociais e políticos que geram a barbárie, sua arte assumiu como principal meta a formação de indivíduos autônomos, autocríticos e com vínculos sociais, eliminando, no que têm de fundamental, as condições que geram a alienação e a violência. Todavia, uma proposta política concreta estava ausente.

Não podemos esquecer que Raul Seixas, autodeclarado “mosca na sopa” e “carpinteiro do universo”, primava pelo desbunde, proposta estética e política que apresenta a arte como divertimento, gozo, celebração, paixão, sempre à margem dos valores dominantes: caretas, opressores, racionalistas e bélicos. Sua limitada resistência política se dava por essa via.

Para nos salvarmos da opressão, mantendo a fidelidade às utopias não realizadas, o raulseixismo nos ensina que não devemos esperar o messias ou um líder revolucionário, mas sim reparar as injustiças e buscar erguer uma Sociedade Alternativa a partir da união coletiva de vontades individuais.

Raul exortava insistentemente ao individualismo, instigando seus interlocutores a abraçarem sozinhos os próprios caminhos. Se assim procedia é porque sabia que, enquanto o venerassem, negariam a própria autonomia. Lúcido, ele não se identificava com um sábio, santo, profeta ou redentor do mundo. Ao mesmo tempo, convidava os fãs a questionarem-se a respeito de si mesmos e de suas vidas.

65 anos após o seu nascimento e duas décadas depois de sua morte, a obra de Raul Seixas permanece importante por sua força imaginativa, utópica, por sua expressão e percepção das (im)possibilidades que permeiam a vida contemporânea. A sua vida nos revela a necessidade de assumirmos a existência como tarefa, uma tarefa da liberdade, que consiste na entrega à descoberta de nossas próprias possibilidades de existência. Pelo fato de ser uma construção permanente, um caminho de realização (nascimento e criação) e desrealização (morte e destruição), essa tarefa só é concluída com a morte.

Em 21 de agosto de 1989, dois dias após o lançamento do LP A Panela do Diabo e cinco dias depois do maior eclipse lunar do século XX, Raul Seixas faleceu de parada cardiorrespiratória provocada por pancreatite crônica e hipoglicemia. A governanta Dalva Borges foi a primeira a encontrá-lo em seu apartamento na Rua Frei Caneca, em São Paulo. O corpo do compositor foi velado no Palácio das Convenções do Anhembi, na capital paulista, para onde uma multidão convergiu a fim de lhe prestar as últimas homenagens. Os fãs tornaram-se órfãos de utopia.

Hoje, o grande desafio de todos aqueles que, seguindo as idéias de Raul Seixas, sonham e lutam por ideais utópicos que se mostraram inalcançáveis, será a dedicação a novos ideais, à descoberta de novos caminhos, pois sonho que se sonha junto é realidade, já dizia o compositor na canção “Prelúdio”, do LP “Gita”, de 1974.

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