Do monstro SIST e arredores

Com este livro, escrito inicialmente para uma dissertação de mestrado, na Universidade Federal do Espírito Santo, Vitor Cei Santos apresenta um estudo instigante e intrigante sobre um dos mais polêmicos músicos na década de 70, no Brasil. O trabalho desenrola um fio cheio de nós o qual poderia não apontar a saída do labirinto histórico, artístico, político, cultural e biográfico no qual se embrenhou. Pois o resultado apresentado demonstra uma solução muito bem resolvida da situação. Primeiro, consegue destacar o músico e suas canções tanto no contexto no qual estava inserido, como ressaltar sua proposta de transformação voltada para aspectos místicos e alternativos em relação ao embate dominante do período; segundo, por perseguir um método que não perde de vista a transição sócio-político-econômica brasileira para uma pós-modernidade que se anunciava.

Houve um tempo no Brasil, especificamente o final da década de 60 e toda a de 70, que todas as discussões encaminhavam-se para polarizações acaloradas diante da circunstância política em que o país vivia. Estávamos sob o tacão da ditadura militar, portanto nada mais natural que assim o fosse. Todos eram chamados, ou constrangidos, em qualquer debate ­– do botequim ao congresso nacional –, a tomar partido sobre a situação existente. Isso não significava, necessariamente, posicionar-se na prática efetiva da luta política partidária, mas, mesmo nos assuntos mais gerais, demarcar uma linha imaginária entre o que corroborava o regime vigente e a oposição a ele. Diante disso, a produção cultural do país não poderia passar incólume às pressões vindas de todas as partes envolvidas no processo: dos produtores aos receptores.

Então vivíamos uma situação paradoxal: o país finalmente deslanchava a sua indústria cultural de massa por ter construído e sistematizado um parque hegemonicamente explorado pela televisão, em grande parte fomentado pelos governos da ditadura militar. A televisão, na década de 70, assume o espaço outrora ocupado pelo rádio. Com isso, a indústria fonográfica também expande-se e uma nova geração de músicos ocupa o cenário dentro dos vários ritmos que consolidam a audiência: notadamente, a Jovem Guarda, a MPB, a música chamada brega e o rock. Paradoxal porque, se de um lado a ditadura incentivava e implementava técnica e tecnologicamente tal parque, por outro censurava uma boa parcela de sua produção realizada pelos artistas envolvidos no processo de criação. Nem a chamada música brega escapou da tesoura dos censores. A censura alegava motivos de ordem moral e antissubversiva para vetar certas obras, porém, evidentemente, a atenção era voltada para qualquer palavra que pusesse sob suspeita o governo instalado. Nesse quadro, fervilharam os festivais que impulsionaram carreiras como as de Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso.

O Tropicalismo, movimento surgido para repensar a cultura nacional num contexto prenunciador do que hoje se chama globalização, afirma-se como uma vertente estético-cultural consciente da necessidade de modernizar e inserir definitivamente o país numa massificação que escapasse às fronteiras do nacionalismo caricato. Assim, o palco musical transformou-se, ele também, num campo de batalha ideológico com partidários de tais e tais músicos ou músicas. Concomitantemente, existia o movimento jovem em escala planetária, pelo menos da banda ocidental. Tais injunções não podiam deixar de reverberar no país, e, como expressão político-ideológico-existencial, os artistas da música ganharam uma notoriedade além de suas atribuições de músicos: uns viram-se transformados em gurus para uma nova ordem social. Se, de um lado, havia uma devoção, quase religiosa, de outro, a racionalidade técnica comandava o espetáculo, o show business e a organização empresarial sobre o apelo estético. Em tal imbricação curiosa floresceu uma massa de jovens ansiosos por transformação social, embebidos em canções e em rock’n’roll. Desbundando-se, ou engajando-se, muitos elegeram músicos como ídolos para verdadeiras adorações. Acreditava-se que, pela música, uma revolução seria possível, pois, segundo um jargão da época, conscientizaria as massas. Em tal conjuntura é de se esperar que os ânimos se acirrassem, por vezes. Como exemplo, lembremos a vaia recebida por Caetano num dos festivais e o seu famoso desabafo; o incensamento de Geraldo Vandré e de sua canção, transformada em hino contra a ditadura militar. Por outras bandas, para tocar a vida, simplesmente, havia a música brega e suas enxurradas de amores fracassados e doridos, levando à comoção um público refém de um romantismo residual, porém ainda dominante no imaginário estandardizado.

Resumidamente, a configuração do período apresentava o quadro descrito acima. Assim, é compreensível que opções estético-políticas fossem feitas, defendidas e vividas por grupos sociais que se conflitavam num país violentamente silenciado. Contudo, deve-se tentar entender o período sem render-se a suas próprias crenças: todas as posições configuravam-se políticas, mesmo que algumas se autodeclarassem apolíticas. As escolhas não deixavam, e não podiam deixar, de representar um determinado ponto de vista social a se relacionar (comensal, simbiótica ou parasitariamente) com o poder hegemônico.

Isso posto, o trabalho de Vitor procura dar conta de uma forma artística que se posicionava de uma maneira lateral diante da lógica dominante: pois, mesmo grupos politicamente opostos podem participar de um mesmo entendimento de mundo, como a apreensão moderna ético-moral do trabalho, por exemplo. Por isso, do autor estudado, Raul Seixas, não se pode dizer que era conformado à situação vigente, embora jogasse a energia inconformada para limites críticos além e aquém, concomitantemente, das necessidades factuais no enfrentamento direto à ditadura. Lendo a história metadiscursivamente, o ator/músico enxergava o momento como pronto a se estabelecer o Novo Aeon (a Sociedade Alternativa, em contraposição ao Velho Aeon), ou seja, uma era de liberdade não apenas econômica e política, mas, sobretudo, existencial, plenificadora e realizadora das potencialidades individuais. Pelo menos assim acreditavam milhares de jovens em todo o mundo ocidental.

Como se percebe pelo trabalho de Vitor, as letras cantadas por Raul Seixas podem ser lidas, em termos de combate, em duas frentes: uma localizada (contra uma ordem específica) e outra ampliada, na qual a mensuração do que é ser humano ainda estava em jogo. Afinal, o monstro SIST – o capitalismo e sua reconfiguração pós-moderna (para falar com Jameson) – encontrava, facilitado pela ditadura, as portas do país abertas para se instalar sem rebuços.

O leitor encontrará no texto de Vitor uma elaborada e intrincada análise de um músico com sua época; de um músico agonístico, engajado na busca de transformar a percepção apostando em métodos por vezes pouco ortodoxos. Assim, o trabalho faz circunvolução em torno de um artista, mas, ao fazer isso, perscruta um país, uma época e um mundo em formação.

Prefácio do livro

por Prof. Dr. Sérgio da Fonseca Amaral

Programa de Pós-Graduação em Letras

Universidade Federal do Espírito Santo

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