Raul Seixas no torvelinho de 2012

Texto publicado hoje no caderno Pensar, do Jornal A Gazeta

2012 é o ano do maluco beleza. Desde janeiro uma série de eventos em todo o país prestam homenagens ao artista Raul Seixas (1945 – 1989), que não tem simplesmente fãs, mas seguidores. Há um caráter de culto na publicidade em torno de seu nome, o que gerou a proliferação de uma série de fã-clubes, covers, publicações e tributos em escala incomparável.

Dentre as homenagens mais aguardadas encontra-se o documentário Raul, o início, o fim e o meio, cuja estreia está prevista para março. Com direção de Walter Carvalho, o filme tentar decifrar e entender o fascínio exercido pelo baiano mais de duas décadas após a sua morte.

O filme, que ganhou o prêmio do público na 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, exibe imagens raras de Raul e entrevistas com pessoas que participaram de todas as etapas da vida do compositor, dentre amigos, familiares,  parceiros musicais, produtores e fãs ilustres.

Durante o carnaval o maluco beleza recebe outras duas homenagens. O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Unidos de São Lucas levará seu enredo Um Maluco do Rock no Samba Belezapara o sambódromo de São Paulo. A escola promete abrir com chave de ouro a noite de desfiles do grupo de acesso no Anhembi, dia 19 de fevereiro.

No mesmo dia, no Rio de Janeiro, um grupo de fãs, inspirados pelo ideal de que “sonho que se sonha junto é realidade”, decidiu botar na rua o bloco Toca Rauuul, que desfila pela primeira vez na Praça Tiradentes. Os organizadores prometem degustação de chopp e releituras das músicas de Raulzito em diversos ritmos carnavalescos.

Em abril, seguindo o ritmo das homenagens, a editora carioca Multifoco lança a segunda edição do meu livro Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo. A obra, escrita inicialmente para uma dissertação de mestrado em Letras, na Universidade Federal do Espírito Santo, teve sua primeira edição publicada em 2010.

Com este livro eu busco pensar a concepção de Novo Aeon (nova era) apresentada por Raul Seixas. Elaborada pelo poeta e mago inglês Aleister Crowley no início do século XX, a doutrina do Novo Aeon impulsionou trajetórias existenciais de grande força contestatória, influenciando a contracultura das décadas de 1960 e 1970. Raul,que acompanhou o movimento e propôs uma Sociedade Alternativa, lançou sua criação poética à condição de espírito do seu tempo.

Novo Aeon dedica-se a analisar a lírica raulseixista à luz da multiplicidade de problemas que formam nossa experiência cultural. Eu pontuo, na obra do compositor baiano, as ressonâncias das questões que animaram o torvelinho do seu tempo: autoritarismo, censura, desbunde, contracultura, ocultismo, indústria cultural, melancolia e niilismo.

Carnaval, filmes e livros fomentam o fenômeno conhecido como  “raulseixismo”. A fama de Seixas levou ao fascínio, convertendo-o em guru da Sociedade Alternativa, profeta, messias e redentor, quase um fundador de religião. Tal como os santos-mártires, seu sofrimento nos últimos anos de vida e sua morte geraram a idolatria póstuma. Por isso é preciso cuidado para não transformar Raul em ídolo, não o levando totalmente a sério, do mesmo modo como ele fez com os seus próprios ídolos, como Elvis Presley e Aleister Crowley.

O nome Raul Seixas tornou-se uma marca com enorme apelo popular. O espírito crítico e o ânimo revolucionário de suas canções foram cooptados pela estética do espetáculo e formatados pela indústria cultural, transformando-se em objeto de entretenimento canalizado para consumo. Perde-se, assim, a possibilidade de reflexão que a sua obra oferece. Predominam os slogans facilmente identificáveis, como o grito de guerra “Toca Raul” e a saudação “Viva a Sociedade Alternativa”.

A arte, por mais crítica que seja, é assimilada pela indústria, capaz de divulgar e vender obras de cunho revolucionário e anticapitalista para seu próprio lucro, sem pôr em risco a sua hegemonia. O sistema suporta críticas e autocríticas, na medida em que gere lucro e leve à acumulação de capital.

Se até mesmo as ideias mais subversivas precisam se manifestar através dos meios disponíveis no mercado, Raul Seixas não se fez de rogado e, jogando o jogo dos ratos, como ele mesmo dizia, se apropriou da indústria cultural. Ele reconhecia o caráter de mercadoria de suas canções, mas recusava a simples adequação servil às leis do mercado.

Raul, enquanto mosca na sopa, adotou uma postura afirmativa diante da cultura da mídia, usando a música comercial, ligeira, como um meio de comunicação rápido e eficiente para transmitir o seu sonho de uma Sociedade Alternativa. Por isso, o garoto que sonhava ser filósofo e escritor tornou-se cantor: “Mas vi que a literatura é uma coisa dificílima de fazer aqui, de comunicar tão rapidamente como a música”, ele afirmou.

Se, por um lado, o “retado Monstro SIST” é capaz de cooptar os revolucionários, assimilando suas mensagens sem arriscar a própria hegemonia, por outro as obras da cultura de mídia ainda podem codificar relações de poder e dominação, em oposição às ideologias, instituições e práticas hegemônicas. É nesse paradoxo que a obra de Raul Seixas, situada nas fronteiras da arte e da indústria cultural, se insere.

A obra de Raul Seixas foi expressão do seu próprio caminho, como ele gostava de dizer. A sua criação poética, mais que arte, era um meio de comunicação: “Porque eu não vejo a música como arte. Música é apenas a vomitada de cada pessoa. Uma cusparada. É a expressão de cada um”, concluiu o compositor.

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