Os heróis dos dias úteis

Os heróis dos dias úteis são tipos que surgiram no século XIX, a partir dos abalos que o capitalismo provocou no planeta. A burguesia, com sua prática desenvolvimentista, agindo como um torvelinho em perpétua desintegração e renovação, converteu o tempo em dinheiro e provocou a constante sublevação e renovação de todos os modos de vida pessoal e social, profanando e dissolvendo os valores anteriormente estabelecidos.

Os avanços na comunicação em larga escala, com o advento dos jornais diários, telégrafo, telefone e outros media, facilitaram a massificação dos valores capitalistas ocidentais. Teve início, assim, aquilo a que se convencionou chamar globalização. Instaurou-se, no mundo globalizado, uma racionalidade discursiva, abstrata, instrumental e autoritária.

Nesse contexto, ganharam supremacia os “heróis dos dias úteis”, servos e perpetuadores da ordem estabelecida, exemplos de inércia social, incapazes que são de uma relação humana plena e autônoma. Eles foram retratados por Raul Seixas no personagem Dr. Paxeco, da canção homônima:

Esse rock de autoria de Raul assume o sarcasmo que perpassa todo o LP da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10 (1971), resposta dos bufões Sérgio Sampaio, Miriam Batucada, Edy Star e Raul Seixas aos choques da vida contemporânea. O lançamento do disco foi um grande deboche contra a “máquina de consumo, principal causa do caos que está formado”.

Podemos ler o personagem Dr. Paxeco como a caricatura de um pequeno-burguês brasileiro, posicionado política, econômica e existencialmente em favor do sistema dominante, e possuindo, por conseguinte, em grau exagerado – e deformado, jocoso– os caracteres distintivos dos homens que trabalham para a manutenção do Monstro SIST.

A partir da segunda estrofe podemos perceber que o compositor se posiciona contra os valores do personagem. A escola da ilusão – outro nome para o Monstro SIST –, dotada de razão planejadora, formou, reformou e engomou o Dr. Paxeco. Reificado, isto é, coisificado, lançado ao mundo como uma mercadoria (força de trabalho), tornou-se um servidor das evidências apresentadas por seu guia, o sistema, limitando-se a ouvir, repetir e obedecer. Os seus olhos de cifrão vêem na vida apenas um meio de satisfazer as necessidades criadas pela sociedade: dinheiro, títulos, trabalho e consumo.

Então, o doutor Paxeco fica perdido, dividido, dirigido, carcomido e iludido, sem saber que a rua passa entre a massa e o caminhão. Em outras palavras, a canção consegue dar forma à consciência dilacerada pelo tempo, carcomida pelo Monstro SIST, tratando da reificação do personagem e de sua dificuldade em participar de uma relação humana plena. Entregues ao ouro de tolo do Monstro SIST, os heróis dos dias úteis representam aqueles que, seduzidos pelas falsas promessas de riqueza, não enxergam a vasta proporção das mazelas sociais.

Raul Seixas nos mostrou que a força do Monstro SIST reside nos efeitos de poder produzidos por todos os seus discursos e práticas, que buscam legitimação apresentando-se como verdades absolutas. O compositor, percebendo que os velhos valores tiram sua força coercitiva desse discurso que cerca e sufoca a nossa civilização, buscou ir além deles.

Enfu

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