Raul Seixas faz 69 anos

Raul Seixas faz 69 anos parte III

Raul Santos Seixas nasceu na manhã do dia 28 de junho de 1945. Hoje, uma série de eventos em todo o país prestam homenagens ao maluco beleza, que não tem simplesmente fãs, mas seguidores. Há um caráter de culto em torno de seu nome, o que gerou a proliferação de uma série de fã-clubes, bandas cover, publicações e tributos em escala incomparável.

 

Raulzito continua com o posto de guru espiritual e educador de muitos daqueles que, ainda hoje, quase 25 anos após sua morte, trazem em si as sementes ainda não germinadas da Sociedade Alternativa. Quer ela venha ou não a se realizar, a obra de Raul Seixas permanece importante por sua força imaginativa, utópica, por sua expressão e percepção das (im)possibilidades que permeiam a vida contemporânea. Esse é o seu legado para as gerações que se seguem.

 

O grande desafio de todos aqueles que, seguindo a proposta do Novo Aeon, sonham e lutam por ideais utópicos que se mostraram inalcançáveis, será a dedicação a novos ideais, à descoberta de novos caminhos, pois sonho que se sonha junto é realidade.

Toca Raul!

New Aeon: Aleister Crowley and Raul Seixas on Thelema and Counterculture

Vitor Cei (UFMG/FU-Berlin)

Abstract: The main objective of this paper is discussing Crowley’s doctrine of Thelema and its central concept of the New Aeon. It puts into question its historical constitution, its values and consequences to the counterculture movement of the 1960s and 1970s, focusing on some theoretical presuppositions implied in its reception by the Brazilian composer Raul Seixas. Taking Crowley’s short text “Liber Oz” as a guideline, it demonstrates that the English occultist was a mythical and controversial writer, poet of the unrestricted freedom and of the will as a maxim sovereign, besides being a defender of the use of sex and drugs to magical purposes. His esoteric discourse stimulated existential trajectories of great refutable power, making him the counterculture guru. Raul Seixas, a son of the postwar period who followed the counterculture movement and sang against the Brazilian dictatorship, made from his poetical creation the social spirit from his time. In Seixas’s music, including some songs composed in English (such as “Love is Magick”, “Morning Train” and “Sunseed”) it’s possible to find a memory of the tensions that occurred in Brazil during the military dictatorial times. In this meaning, we look for the resonances in his work of the questions that aim his time: alternative culture, authoritarism, censorship, cultural industry, magic, utopia/dystopia, violent conflicts and violation of human rights. When the wind flied and swept the old streets, the world was able to glimpse the beginning of a new age.

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Liber LXXVII

liber-oz

“the law of the strong:

this is our law, and the joy of the world.”
—AL II:21

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“Do what thou wilt shall be the whole of the Law.” —AL I:40

“thou hast no right but to do thy will.
Do that, and no other shall say nay.” —AL I:42-3

“Every man and every woman is a star..” —AL I:3

There is no god but man.

1. Man has the right to live by his own law—
to live in the way that he wills to do:
to work as he will:
to play as he will:
to rest as he will:
to die when and how he will.

2. Man has the right to eat what he will—
to drink what he will:
to dwell where he will:
to move as he will on the face of the earth.
3. Man has the right to think what he will—
to speak what he will:
to write what he will:
to draw, paint, carve, etch, mould, build as he will:
to dress as he will.

4. Man has the right to love as he will—

“take your fill and will of love as ye will,
when, where, and with whom ye will.” —AL I:51

5. Man has the right to kill those who would thwart these rights.
“the slaves shall serve.” —AL II:58
“Love is the law, love under will.” —AL I:57

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Tradução

“A Lei do Forte: Essa é a nossa lei e a alegria do mundo” (AL 2.21).
“Faze o que queres, há de ser tudo da Lei” (AL 1.40).
“Não tens direito fora fazer o que queres. Faz isto, e ninguém dirá não” (AL 1.42-3).
“Todohomem e todamulher é uma estrela” (AL 1.3).

NÃO HÁ DEUS ALÉM DO HOMEM

1- O homem tem o direito de viver pela sua própria lei
de viver da maneira que ele quiser;
de trabalhar como ele quiser;
de brincar como ele quiser;
de descansar como ele quiser;
de morrer quando e como ele quiser.

2- O homem tem o direito de comer o que ele quiser
de beber o que ele quiser;
de se abrigar onde quiser;
de se movercomo queira na face da Terra.

3- O homem tem o direito de pensar o que ele quiser
de falar o que ele quiser;
de escrever o que ele quiser;
de desenhar, pintar, esculpir, gravar, moldar, construir como ele quiser;
de vestir-se como quiser.

4- O homem tem o direito de amar como ele quiser

“Pegai vosso quinhão e vontade de amor como vós quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes” (AL 1.51).

5- O homem tem o direito de matar aqueles que possam frustrar esses direitos

“Os escravos servirão” (AL 2.58).
“Amor é a lei, amor sob vontade” (AL 1.57).

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Comentário

O Liber Oz é a declaração thelêmica dos direitos da humanidade. A canção “A Lei” (SEIXAS, 1988) repete o texto supracitado quase na íntegra (plágio ou tradução, de acordo com o ponto de vista). Conforme comentamos no livro Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo, a Lei de Thelema não deve ser interpretada como uma licença para a realização de qualquer capricho individual, mas sim como a missão divina de cada indivíduo: encontrar sua verdadeira vontade, o propósito de sua vida, permitindo que todos possam percorrer o autêntico caminho individual.

A compreensão e a aceitação da Lei de Thelema é o que define um thelemita, que tem na descoberta de sua verdadeira vontade a maior motivação. Homens e mulheres, alcançando a harmonia com o próprio universo, estariam capacitados a assumir seu status divino e a realizar as suas verdadeiras vontades. “Faze o que tuqueres, há de ser o todo da Lei”.

23 anos sem Raul Seixas


Em 21 de agosto de 1989, dois dias após o lançamento do LP A Panela do Diabo e cinco dias depois do maior eclipse lunar do século XX, Raul Seixas faleceu de parada cardiorrespiratória provocada por pancreatite crônica e hipoglicemia. A governanta Dalva Borges foi a primeira a encontrá-lo em seu apartamento na Rua Frei Caneca, em São Paulo.

O corpo do compositor foi velado no Palácio das Convenções do Anhembi, na capital paulista, para onde uma multidão convergiu a fim de lhe prestar as últimas homenagens. O artista não tem simplesmente fãs, mas seguidores. Há um caráter de “culto” na publicidade em torno do nome de Raul, o que gerou a proliferação de centenas de covers e fã-clubes espalhados pelo Brasil.

A fama levou ao fascínio, convertendo-o em guru da Sociedade Alternativa, profeta, messias, redentor ou fundador de religião. Tal como os santos-mártires, seu sofrimento nos últimos anos de vida e sua morte repentina geraram a idolatria póstuma.

Mais de 5 mil pessoas passaram a madrugada despedindo-se do artista, chorando, cantando suas canções, entoando coros e prestando diversas homenagens, transformando a ocasião solene, que poderia ter passado despercebida, em um espetáculo midiático. Por pressão dos fãs, que queriam uma homenagem digna de herói nacional, o corpo de Raul foi levado pelo carro do Corpo de Bombeiros até o Aeroporto de Congonhas, de onde foi transportado para Salvador.

Em 21 de agostode 1989 os fãs de Raul tornaram-se órfãos de utopia. Foi-se o messias, horizonte desde ondes e articulavam os ideais que prometiam uma Sociedade Alternativa.

23 anos após a sua morte, a obra de Raul Seixas permanece importante por sua força imaginativa, utópica, por sua expressão e percepção das (im)possibilidades que permeiam a vida contemporânea. Esse é o seu legado para as novas gerações, conforme o próprio Maluco Beleza afirmou na canção-testamento “Geração da Luz”:

 

Ouro de Tolo

A letra de Ouro de Tolo, por ser escrita em primeira pessoa, chama a atenção do público, que se identifica com o eu lírico, sendo que tudo que é falado pode ser dito do ouvinte e pelo ouvinte. O eu lírico, autocrítico, percebe em sua própria voz marcas e limites que remetem à sua inserção no sistema contra o qual quer cantar.

O título da canção faz referência à pirita, mineral de pouco valor que por apresentar coloração dourada e brilho metálico é conhecido popularmente como “ouro de tolo”. O nome popular do minério pode ser lido como uma metáfora para a sedução do consumo que ilude a população com a promessa de ascensão social. As classes médias comem alpiste e se veem anuladas em face do poder econômico das classes dominantes.

Outra interpretação possível para o título é apresentada por Luiz Lima. Segundo o historiador, “ouro de tolo” era o nome que se dava, na Idade Média, às falsas promessas de pseudoalquimistas que prometiam fabricar o metal precioso. Por outro lado, na linguagem simbólica dos autênticos alquimistas, a transformação de outros metais em ouro era uma metáfora para a transformação espiritual do ser humano, de um estado energeticamente pesado, o “chumbo”, para outro, de iluminação, o “ouro”.

A canção parece exprimir a tensão existencial do compositor diante do caráter contraditório da vida na sociedade de consumo. O brasileiro, desprovido de liberdade ou de direitos de cidadania, é coagido a “vencer na vida”, satisfazendo-se com o consumo de casa própria, carro do ano, eletrodomésticos e outros bens. A composição apresenta essa coerção e, na penúltima estrofe, mostra a passagem do estado passivo do eu lírico à sua tentativa de resistência ao status quo.

“Ouro de Tolo” transmite inconformismo diante do modo de vida constituído a partir das conquistas capitalistas. A canção não procura confrontar os valores dominantes a outros sustentados nos mesmos princípios, como se estivesse engajada na luta por uma sociedade mais “justa”, em que todos tivessem direito a emprego com um salário adequado à vida nessa mesma sociedade.

Ao contrário disso, a letra ironiza os costumes e crenças da sociedade de consumo, disparando chistes contra os valores mais prezados pelo conservadorismo da época: o Deus-Pai que faz concessões, o ufanismo pela pátria amada, a família vista como célula do organismo social e, claro, o consumo como um direito adquirido.

A canção oscila entre o tom melancólico e o eufórico. Pelo primeiro, apresenta descrença em relação ao desenvolvimentismo. Através do segundo, cria um distanciamento em relação à ilusão do “milagre brasileiro”, operando-se a possibilidade de uma ruptura com o Monstro SIST e a instauração de uma Sociedade Alternativa.

Chato, inoportuno, assim devia ser visto o cantor-compositor pela classe-média, fascinada com as belezas naturais (praia), as novidades tecnológicas (carro do mês), a indústria cultural (jornal) e o lazer (tobogã e zoológico).

A última estrofe da canção, por mencionar um disco voador, é a mais alegórica e polissêmica. Faremos duas leituras possíveis. Em primeiro lugar ela nos remete ao escapismo místico contemporâneo. A contemporaneidade é impregnada de misticismo esotérico, uma busca de proteção contra os malefícios da razão instrumental. Há a crença num mundo reencantado, habitado por seres mágicos, miraculosos, guiados por forças sobre-humanas e energias incompreensíveis ao entendimento racional.

As espaçonaves que transportam seres de outros planetas ou de outras dimensões são uma conhecida crença da contracultura. Muitos membros de movimentos alternativos acreditam que os discos voadores trazem mensagens de salvação para a humanidade e alguns de seus líderes afirmam até já terem entrado em contato com os extraterrestres.

Raul Seixas, imerso na contracultura, poderia realmente acreditar na existência de OVNIS, como declarou em entrevista a O Pasquim em novembro de 1973. O cantor enfatizou que o disco voador era real e palpável, e que de sua visualização teria surgido a canção “Ouro de Tolo”. Ele contou que teria conhecido o futuro parceiro Paulo Coelho na então semideserta Barra da Tijuca, numa tarde em que os dois estavam lá meditando e presenciaram a aparição da espaçonave.

Por outro lado, a entrevista nos leva a pensar que a história do disco voador poderia ser uma estratégia de marketing de Raul Seixas. O jornalista de O Pasquim afirma que falar sobre disco voador estava na moda, e que estaria “todo mundo vendo disco voador de novo”. “Esse disco voador foi pras paradas de sucesso”, assevera o repórter.

Seja crença ou jogada promocional, o disco voador funciona como uma metáfora para o desejo de sair do mundo capitalista em direção a uma sociedade alternativa. Nesse sentido, a metáfora da espaçonave indica que o verdadeiro ouro estaria no despertar da consciência individual, visando à passagem para o Novo Aeon – a Sociedade Alternativa.

Referências:

CEI, Vitor. Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo

LIMA, Luiz. Vivendo a Sociedade Alternativa: Raul Seixas no panorama da contracultura jovem

Os heróis dos dias úteis

Os heróis dos dias úteis são tipos que surgiram no século XIX, a partir dos abalos que o capitalismo provocou no planeta. A burguesia, com sua prática desenvolvimentista, agindo como um torvelinho em perpétua desintegração e renovação, converteu o tempo em dinheiro e provocou a constante sublevação e renovação de todos os modos de vida pessoal e social, profanando e dissolvendo os valores anteriormente estabelecidos.

Os avanços na comunicação em larga escala, com o advento dos jornais diários, telégrafo, telefone e outros media, facilitaram a massificação dos valores capitalistas ocidentais. Teve início, assim, aquilo a que se convencionou chamar globalização. Instaurou-se, no mundo globalizado, uma racionalidade discursiva, abstrata, instrumental e autoritária.

Nesse contexto, ganharam supremacia os “heróis dos dias úteis”, servos e perpetuadores da ordem estabelecida, exemplos de inércia social, incapazes que são de uma relação humana plena e autônoma. Eles foram retratados por Raul Seixas no personagem Dr. Paxeco, da canção homônima:

Esse rock de autoria de Raul assume o sarcasmo que perpassa todo o LP da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10 (1971), resposta dos bufões Sérgio Sampaio, Miriam Batucada, Edy Star e Raul Seixas aos choques da vida contemporânea. O lançamento do disco foi um grande deboche contra a “máquina de consumo, principal causa do caos que está formado”.

Podemos ler o personagem Dr. Paxeco como a caricatura de um pequeno-burguês brasileiro, posicionado política, econômica e existencialmente em favor do sistema dominante, e possuindo, por conseguinte, em grau exagerado – e deformado, jocoso– os caracteres distintivos dos homens que trabalham para a manutenção do Monstro SIST.

A partir da segunda estrofe podemos perceber que o compositor se posiciona contra os valores do personagem. A escola da ilusão – outro nome para o Monstro SIST –, dotada de razão planejadora, formou, reformou e engomou o Dr. Paxeco. Reificado, isto é, coisificado, lançado ao mundo como uma mercadoria (força de trabalho), tornou-se um servidor das evidências apresentadas por seu guia, o sistema, limitando-se a ouvir, repetir e obedecer. Os seus olhos de cifrão vêem na vida apenas um meio de satisfazer as necessidades criadas pela sociedade: dinheiro, títulos, trabalho e consumo.

Então, o doutor Paxeco fica perdido, dividido, dirigido, carcomido e iludido, sem saber que a rua passa entre a massa e o caminhão. Em outras palavras, a canção consegue dar forma à consciência dilacerada pelo tempo, carcomida pelo Monstro SIST, tratando da reificação do personagem e de sua dificuldade em participar de uma relação humana plena. Entregues ao ouro de tolo do Monstro SIST, os heróis dos dias úteis representam aqueles que, seduzidos pelas falsas promessas de riqueza, não enxergam a vasta proporção das mazelas sociais.

Raul Seixas nos mostrou que a força do Monstro SIST reside nos efeitos de poder produzidos por todos os seus discursos e práticas, que buscam legitimação apresentando-se como verdades absolutas. O compositor, percebendo que os velhos valores tiram sua força coercitiva desse discurso que cerca e sufoca a nossa civilização, buscou ir além deles.

Enfu