Ouro de Tolo

A letra de Ouro de Tolo, por ser escrita em primeira pessoa, chama a atenção do público, que se identifica com o eu lírico, sendo que tudo que é falado pode ser dito do ouvinte e pelo ouvinte. O eu lírico, autocrítico, percebe em sua própria voz marcas e limites que remetem à sua inserção no sistema contra o qual quer cantar.

O título da canção faz referência à pirita, mineral de pouco valor que por apresentar coloração dourada e brilho metálico é conhecido popularmente como “ouro de tolo”. O nome popular do minério pode ser lido como uma metáfora para a sedução do consumo que ilude a população com a promessa de ascensão social. As classes médias comem alpiste e se veem anuladas em face do poder econômico das classes dominantes.

Outra interpretação possível para o título é apresentada por Luiz Lima. Segundo o historiador, “ouro de tolo” era o nome que se dava, na Idade Média, às falsas promessas de pseudoalquimistas que prometiam fabricar o metal precioso. Por outro lado, na linguagem simbólica dos autênticos alquimistas, a transformação de outros metais em ouro era uma metáfora para a transformação espiritual do ser humano, de um estado energeticamente pesado, o “chumbo”, para outro, de iluminação, o “ouro”.

A canção parece exprimir a tensão existencial do compositor diante do caráter contraditório da vida na sociedade de consumo. O brasileiro, desprovido de liberdade ou de direitos de cidadania, é coagido a “vencer na vida”, satisfazendo-se com o consumo de casa própria, carro do ano, eletrodomésticos e outros bens. A composição apresenta essa coerção e, na penúltima estrofe, mostra a passagem do estado passivo do eu lírico à sua tentativa de resistência ao status quo.

“Ouro de Tolo” transmite inconformismo diante do modo de vida constituído a partir das conquistas capitalistas. A canção não procura confrontar os valores dominantes a outros sustentados nos mesmos princípios, como se estivesse engajada na luta por uma sociedade mais “justa”, em que todos tivessem direito a emprego com um salário adequado à vida nessa mesma sociedade.

Ao contrário disso, a letra ironiza os costumes e crenças da sociedade de consumo, disparando chistes contra os valores mais prezados pelo conservadorismo da época: o Deus-Pai que faz concessões, o ufanismo pela pátria amada, a família vista como célula do organismo social e, claro, o consumo como um direito adquirido.

A canção oscila entre o tom melancólico e o eufórico. Pelo primeiro, apresenta descrença em relação ao desenvolvimentismo. Através do segundo, cria um distanciamento em relação à ilusão do “milagre brasileiro”, operando-se a possibilidade de uma ruptura com o Monstro SIST e a instauração de uma Sociedade Alternativa.

Chato, inoportuno, assim devia ser visto o cantor-compositor pela classe-média, fascinada com as belezas naturais (praia), as novidades tecnológicas (carro do mês), a indústria cultural (jornal) e o lazer (tobogã e zoológico).

A última estrofe da canção, por mencionar um disco voador, é a mais alegórica e polissêmica. Faremos duas leituras possíveis. Em primeiro lugar ela nos remete ao escapismo místico contemporâneo. A contemporaneidade é impregnada de misticismo esotérico, uma busca de proteção contra os malefícios da razão instrumental. Há a crença num mundo reencantado, habitado por seres mágicos, miraculosos, guiados por forças sobre-humanas e energias incompreensíveis ao entendimento racional.

As espaçonaves que transportam seres de outros planetas ou de outras dimensões são uma conhecida crença da contracultura. Muitos membros de movimentos alternativos acreditam que os discos voadores trazem mensagens de salvação para a humanidade e alguns de seus líderes afirmam até já terem entrado em contato com os extraterrestres.

Raul Seixas, imerso na contracultura, poderia realmente acreditar na existência de OVNIS, como declarou em entrevista a O Pasquim em novembro de 1973. O cantor enfatizou que o disco voador era real e palpável, e que de sua visualização teria surgido a canção “Ouro de Tolo”. Ele contou que teria conhecido o futuro parceiro Paulo Coelho na então semideserta Barra da Tijuca, numa tarde em que os dois estavam lá meditando e presenciaram a aparição da espaçonave.

Por outro lado, a entrevista nos leva a pensar que a história do disco voador poderia ser uma estratégia de marketing de Raul Seixas. O jornalista de O Pasquim afirma que falar sobre disco voador estava na moda, e que estaria “todo mundo vendo disco voador de novo”. “Esse disco voador foi pras paradas de sucesso”, assevera o repórter.

Seja crença ou jogada promocional, o disco voador funciona como uma metáfora para o desejo de sair do mundo capitalista em direção a uma sociedade alternativa. Nesse sentido, a metáfora da espaçonave indica que o verdadeiro ouro estaria no despertar da consciência individual, visando à passagem para o Novo Aeon – a Sociedade Alternativa.

Referências:

CEI, Vitor. Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo

LIMA, Luiz. Vivendo a Sociedade Alternativa: Raul Seixas no panorama da contracultura jovem

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